No Algarve, esta pergunta tem particular importância. Em 2024, os estabelecimentos de alojamento turístico da região registaram 5,25 milhões de hóspedes e 20,7 milhões de dormidas: cerca de um quarto do total nacional. Estes números revelam oportunidades de emprego e rendimento, mas também uma responsabilidade: preservar as condições que permitem à região acolher quem a visita.
Essas condições incluem água disponível, solos férteis, biodiversidade abundante e comunidades com capacidade de viver e trabalhar no território. A erosão, a escassez de água e os efeitos das alterações climáticas comprometem esta base comum. A paisagem que atrai visitantes é também o lugar onde se produz alimento, se constroem relações e se sustenta a vida quotidiana.
O que é o turismo regenerativo?
É aqui que o turismo regenerativo ganha sentido. Começa pela compreensão de cada local e procura contribuir para o seu bem-estar social, ecológico e económico. Embora continue a ser necessário reduzir o consumo e os impactos, a visão e a ambição regenerativas acrescentam o compromisso de gerar mais vida e criar um equilíbrio energético positivo: reforçando a capacidade do solo para sustentar a vida, a capacidade das comunidades para cooperarem e a capacidade da economia local para apoiar aqueles que cuidam da terra.
Anna Pollock, uma das pensadoras por trás desta abordagem, propõe que o turismo seja entendido como parte de um sistema vivo no qual a natureza, a cultura, as pessoas e a economia estão interligadas. Esta perspetiva altera o ponto de partida: o desenvolvimento do turismo deve ser orientado pelo potencial e pelas necessidades de um local, com a participação daqueles que lá vivem.
Na prática, isto exige escolhas concretas. A compra junto de produtores locais pode estabelecer uma ligação entre os serviços de restauração do setor hoteleiro e a agricultura, criando relações económicas mais estáveis. Apoiar práticas agrícolas que recuperem o solo pode associar a qualidade dos alimentos ao cuidado com a paisagem. Pagar salários justos e envolver os residentes nas decisões ajuda a distribuir benefícios e responsabilidades. As políticas públicas e as estratégias empresariais têm de sustentar estas relações para além de uma única experiência ou época turística.
Os visitantes podem participar neste processo. Compreender de onde vêm os alimentos, aprender com quem trabalha a terra ou apoiar iniciativas locais são formas de construir uma relação mais consciente com um lugar. Esta participação deve responder a necessidades reais, ser orientada por quem conhece a região e respeitar os seus ritmos. Uma atividade pontual de voluntariado, por si só, não demonstra regeneração.
Turismo regenerativo no Vale da Lama
O Vale da Lama é uma quinta biológica e regenerativa com 43 hectares, situada perto de Lagos, em Portugal, onde exploramos estas ligações através de um ecossistema de projetos que reúne Quinta Vale da Lama, Casa Vale da Lama, Associação Novas Descobertas, e Fundação Mud Valley. A agricultura, a alimentação, a hospitalidade, a educação e a ação comunitária têm aqui pontos em comum. A quinta aplica práticas de agricultura regenerativa e de restauro de ecossistemas, enquanto os programas de aprendizagem e participação aproximam os residentes e os visitantes deste trabalho.
A inclusão da quinta como quinta-farol no ptrojeto TUI Field to Fork Portugal: Alentejo Regenerativo, coordenado por Terra Sintrópica em parceria com a TUI Care Foundation, faz parte desta jornada. O projeto estabelece uma ligação entre a agricultura, a alimentação, o turismo e a comunidade através do reforço de capacidades, de experiências gastronómicas e da aprendizagem partilhada entre pessoas e organizações. As quintas-farol constituem exemplos práticos de aprendizagem colaborativa e servem de referência para empreendedores que procuram aliar a agricultura regenerativa, os sistemas alimentares regenerativos, o turismo regenerativo e a comunidade.
A visita da Comunidade de Prática à Quinta Vale da Lama a 22 de setembro de 2026 acontece no âmbito desta troca de conhecimentos. Recebemos 20 pessoas de outros projetos para dar visibilidade a estas práticas e criar um espaço para questionar como ligar a agricultura, a hospitalidade e a regeneração. O valor destes encontros reside também na oportunidade de aprender em conjunto e adaptar ideias a diferentes contextos.
Para nós, a inovação no turismo passa pela construção destas relações e pelo acompanhamento dos resultados alcançados. Precisamos de compreender como estas relações melhoram a gestão do solo e da água, reforçam os meios de subsistência dos produtores e aumentam a capacidade de ação das comunidades. É assim que a intenção pode traduzir-se na prática.
O turismo pode contribuir para a regeneração dos locais quando o respeito pelo ambiente e pelas comunidades locais orienta as decisões tanto dos anfitriões como dos visitantes. No Vale da Lama, este é o caminho que procuramos trilhar: acolher as pessoas e, em conjunto, cultivar as condições para que a vida continue a florescer.
